Sem o Atlético, Independência corre o risco de fechar os portões

Se com o Atlético o rombo nas contas da Luarenas, administradora do estádio Independência, já é grande, sem ele, o negócio ficará completamente inviável. Nos cinco primeiros anos de operação (2012-2016), a concessionária acumulou R$ 10,5 milhões em prejuízos. Agora, com a decisão do Galo de construir sua casa própria – prevista para ficar pronta em 2020 –, a empresa poderá perder 96% de sua fonte principal de arrecadação.

O cálculo é feito na comparação das rendas brutas de bilheteria de Atlético e América neste ano. A equipe alvinegra leva, em média, sete vezes mais público ao Horto do que o Coelho. Enquanto, em 27 jogos no ano, o Galo conseguiu angariar R$ 13,1 milhões, a equipe alviverde somou apenas R$ 573 mil (confira na página ao lado). Parte da arrecadação das partidas é usado para o pagamento das despesas. Os clubes faturam com o bilhete comum, e a Luarenas, com a venda do espaço dos camarotes.

Em 2012, no ano de reinauguração do estádio, o Atlético firmou com a empresa um contrato comercial de dez anos, mediante um aporte atleticano de R$ 8 milhões, dividindo os possíveis dividendos dos negócios no que se refere a estacionamento, bares, publicidades e naming rights (esse último não foi comercializado). Cada um ficaria com metade da arrecadação líquida, restando ao América, dono do estádio, e ao Estado, que pagou a reforma, 5% da arrecadação bruta cada um.

Dificuldades

Os balanços financeiros do Atlético, no entanto, relatam que “não foram apurados resultados positivos” no período, sem discriminar demais detalhes. Sem faturar o suficiente, a Luarenas parou de depositar, no início de 2016, a parte que cabia ao governo e ao América. O montante já chega a R$ 5 milhões (R$ 2,5 milhões para cada), valor confirmado pela Secretaria de Estado de Esportes (Seesp). “Esse valor se refere aos repasses devidos da concessionária pelo uso da arena”, informou a Seesp, em nota, ao SUPER FC, o presidente da Luarenas, Bruno Balsimelli, admitiu que será impossível continuar administrando o Independência sem o Atlético. “Se o Atlético tiver uma nova arena, não há motivo para ficar com o Independência. É óbvio. É uma bela arena, mas precisa de um clube grande, de grande torcida”, afirmou.

De toda forma, o executivo explicou que o contrato deve ser cumprido até o fim em 2022. Mas, se o Atlético realmente começar a utilizar seu novo estádio a partir de 2021, como está previsto, ele deverá sentar com o governo de Minas para negociar uma ruptura do contrato. “Acho que vai dar o tempo certo do vencimento do contrato. Mas, se quisermos sair antes (do Independência), a gente tenta negociar. Acho que não vai ter problema nenhum. Não tem multa”, destacou. Providências

Antes mesmo de seu término, a readequação do contrato já é discutida pelo governo, sendo acompanhado pela Controladoria Geral do Estado, pela Secretaria de Casa Civil e de Relações Institucionais e pela Advocacia Geral do Estado. O Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) também acompanha o caso.

“O modelo precisa ser revisto, e estamos negociando. Ela (Luarenas) já fez algumas reivindicações, e recusamos. Estamos tratando do assunto dentro dos trâmites jurídicos e contratuais”, explicou o secretário de Estado de Casa Civil e Relações Institucionais, Marco Antônio Teixeira. Conselheiro do Galo, ele votou a favor do estádio do clube. “O Atlético tem o direito de buscar seus caminhos”, afirmou.

(Com Antônio Anderson)

Autonomia

Atlético decidiu construir seu estádio próprio justamente porque entende que não consegue arrecadar no Horto o dinheiro que acha que deveria. Nos cálculos do clube, o Galo só recebe, em média, R$ 23 de cada R$ 100 gastos por seu torcedor, incluindo ingresso, alimentação e perdas para a concorrência de ambulantes e flanelinhas. De toda forma, a Luarenas, antes chamada de BWA, tem bom relacionado com o Atlético. Um dos braços da empresa é a Ingresso Fácil, responsável pela bilhetagem dos jogos do clube. O presidente do Atlético, Daniel Nepomuceno, por sua vez, negou qualquer negociação já visando ao novo estádio do clube.

Propósitos

Crítico dos estádios para a Copa, o ex-presidente do Atlético Alexandre Kalil, atual prefeito de Belo Horizonte, foi quem firmou o acordo do clube com a então BWA, em 2012. Como um homem público, ele não vê problemas no fato de a cidade, de 2,5 milhões de habitantes, caminhar para um terceiro estádio. “O Atlético não está propondo sujar a cidade, cortar árvore ou ocupar parque. Estamos pegando um lote vago e transformando em um equipamento esportivo e rentável. Não tenho a menor dúvida de que a Câmara (que precisa aprovar o estádio do Atlético) vai abraçá-lo, como abraçou o Independência e vai ter que abraçar se o Cruzeiro quiser fazer uma arena”, afirmou.

Sem renda

Apesar da boa fase na Série B do Campeonato Brasileiro, o América vem pagando para jogar no Independência. Nem mesmo com as duas partidas com maiores públicos do Coelho na temporada pela competição nacional o time conseguiu colocar algum dinheiro no bolso. O empate em 1 a 1 com o Internacional, pela sétima rodada, levou 3.392 torcedores ao estádio do Horto, mas o prejuízo foi de R$ 25.944,17. Já o 0 a 0 com o Guarani, pela 14ª rodada, foi acompanhado por 5.751 americanos, recorde de público do Coelho nesta edição da Série B. Mais uma vez, o América deixou o Independência com os bolsos vazios. Dessa vez, o prejuízo foi de R$ 15.056,91.

Dívida do estádio pode virar bola de neve para o América

Presidente do América, Alencar Silveira Júnior garante que o estádio não ficará ocioso. “Mesmo sem o Atlético, o Independência vai ficar de pé de qualquer maneira, tem o América para jogar ali”, garante. Segundo Alencar, se, em 2022, a Luarenas não quiser continuar administrando o Independência, o América assume o espaço. “O Estado de Minas Gerais é quem terá a responsabilidade de gerir o estádio. Mas, se ele não quiser, o América aceita de volta no outro dia”, afirmou o dirigente.

Caso não haja a renovação com a administradora, o governo poderá recriar a Administração de Estádio de Minas Gerais (Ademg), extinta em 2013. Em 2029, está prevista a devolução da posse do estádio ao América que, no entanto, precisará pagar o restante da dívida pela construção do complexo.

As obras custaram R$ 150 milhões aos cofres públicos e, como a Luarenas não vem reembolsando o Estado, é possível haver um novo impasse. Para quitar a dívida, o Coelho terá que destinar metade do lucro líquido da arena para quitar a dívida.

Da teoria à prática

Contrato

Como o novo Independência foi erguido com recursos públicos e em um terreno do América, o plano de negócios previu a cessão da arena para a exploração comercial pelo prazo de 20 anos. Reinaugurado em 2012, o primeiro contrato firmado termina em 2022, mas pode ser renovado. Como forma de ressarcir o Estado e o clube proprietário, a então BWA (hoje, Luarenas), gestora do estádio, precisa repassar mensalmente 2,5% da arrecadação bruta para cada uma das partes, o equivalente a cerca de R$ 100 mil mensais. Até 2016, quando a concessionária parou de fazer o repasse, a administração estadual havia recebido aproximadamente R$ 4 milhões. Multa e índices de correção são aplicados em caso de atraso nos pagamentos.

Contestações

Além do viés esportivo, o Independência tinha atribuições sociais e financeiras a cumprir para justificar o aporte do dinheiro público em um equipamento particular. Mas não faltaram equívocos ou propostas malsucedidas. As obras, que deveriam começar no início de 2009, foram adiadas várias vezes. 6>A reforma virou uma reconstrução,e os custos aumentaram de R$ 46 milhões para quase R$ 120 milhões, motivando o Ministério Público a mover uma ação civil pública contra os envolvidos no empreendimento. O estádio, reformado para que a capital não ficasse sem futebol durante as obras do Mineirão para a Copa, acabou entregue só em abril de 2012. Por quase dois anos, Atlético, Cruzeiro e América precisaram jogar em Sete Lagoas.

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